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  • Sua Alteza o Aga Khan a proferir o Discurso de Abertura da conferência “África 2016 - Negócios para África, Egipto e o Mundo” em Sharm el-Sheikh, Egipto.
    AKDN / Aly Zahur Ramji
Conferência "África 2016"

Bismillah-ir-Rahman-ir-Rahim

Suas Excelências, 

Membros do Corpo Diplomático,

Ilustres Líderes Africanos,

Senhoras e Senhores,

É para mim um grande prazer fazer parte do Fórum África 2016. Agradeço afetuosamente ao Presidente Sisi pelo amável convite. É uma maravilhosa oportunidade para encontrar velhos e novos amigos de todo o mundo e conversar sobre o futuro de África.

Hoje, o meu entusiasmo é particularmente forte devido à mensagem que está no âmago deste Fórum. E de uma forma simples, essa mensagem é que o momento de África chegou.

Estou orgulhoso por demonstrar o meu forte apoio a esta posição.

Devemos ser realistas, é uma evidência que os povos africanos veem-se confrontados com sérios desafios. Um dos exemplos é o enorme problema do desemprego entre os jovens - em países com algumas das maiores percentagens de jovens no mundo.

Mas a história do progresso e do potencial de África é também ela impressionante - seja se estivermos a falar do crescimento do PIB e do investimento estrangeiro direto, ou a olhar para a diversificação económica e a resiliência nacional, ou a traçar o papel e a ascensão de uma classe média vital - e a expansão das despesas dos consumidores - chegando atualmente à marca do bilião de dólares.

A nossa experiência com a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento sustenta este cenário positivo. Hoje em dia, estamos ativos em 13 países africanos, em áreas que vão desde a saúde e educação, a viagens e hospitalidade, de empresas de produtos alimentares e roupa a bancos e finanças, média e cultura.

Muitas destas iniciativas já levam várias décadas - com alguns altos e baixos, é claro. Mas quando olhamos para estas experiências no terreno, podemos afirmar com convicção que o momento de África chegou.

Contudo, não são apenas os dados económicos a sustentar esta afirmação. O meu próprio otimismo também é baseado em qualidades intangíveis, incluindo um novo espírito inspirador de confiança africana.

Aquilo que vejo a emergir hoje é uma confiança renovada e equilibrada em África - um espírito encorajado pelo progresso do passado, ao mesmo tempo que busca novas respostas para novos desafios - tendo a noção de que a melhor forma de avançar em direção ao futuro é caminhar lado a lado com parceiros que partilham os mesmos objetivos. E hoje estamos aqui todos para assumir esse papel.

Destaco o papel desempenhado por essa confiança pois aborda um problema que há muito atormenta a raça humana. Refiro-me ao medo que tantas vezes sentimos de que o nosso ambiente venha a ser controlado por terceiros, ao ponto de nos distanciarmos de potenciais parceiros de valor.

Esta diferença pode estender-se a pessoas de diferentes grupos étnicos, diferentes tribos, diferentes nacionalidades, diferentes tradições religiosas. Pode também estender-se a pessoas com diferentes sensibilidades políticas ou económicas. E o resultado frequente disso é uma fragmentação da sociedade, um colapso da cooperação, uma subcorrente de medo e até uma polarização paralisante da nossa vida pública. E pode dar azo a um ambiente perfeitamente incapacitante.

África tem sido afligida repetidamente pelo problema da fragmentação, separando tribos de tribos, países de países, o sector privado do sector público - aqueles que têm o poder político daqueles que estão na oposição. Nestes casos, o facto de ser diferente é muitas vezes visto como um fardo ou uma ameaça, uma fonte de medo e suspeita.

Mas existem outras maneiras de olhar para as nossas diferenças. Como seria maravilhoso e libertador se a maioria de nós, durante a maior parte do tempo, conseguisse olhar para a diversidade não como um fardo, mas como uma bênção; não como uma ameaça, mas como uma oportunidade.

Acredito que esta mudança de atitude em relação à diversidade está a acontecer agora na África, em parte devido a um novo sentimento de confiança africana. Hoje observamos uma maior cooperação a atravessar fações tribais e religiosas, divisões políticas e fronteiras nacionais. Um exemplo poderoso é o acordo comercial tripartido assinado em Sharm el-Sheikh em Junho passado.

E também temos visto novas formas de cooperação entre as pessoas no sector privado e público. O conceito de Parcerias Público-Privadas tem sido a pedra basilar de muitos dos projetos da nossa Rede em África e noutros lugares.

Uma cooperação que transponha as linhas tradicionais de divisão não significa a eliminação das nossas identidades independentes e de que tanto nos orgulhamos. Mas significa encontrarmos identidades adicionais e enriquecedoras enquanto membros de comunidades maiores - e, em última instância, enquanto pessoas que partilham uma humanidade comum. Significa comprometermo-nos com uma Ética de Pluralismo.

Gostaria de mencionar uma questão em particular na qual a adesão ao pluralismo por parte de África será testada nos próximos anos, e a partir da qual creio poder vir a ser forjado o sucesso de África. Refiro-me à capacidade dos povos africanos e dos seus líderes para fortalecer as instituições da "Sociedade Civil".

Quando falo de Sociedade Civil, refiro-me aquela faixa de atividade social que não provém de organizações empresariais privadas, nem de autoridades governamentais. As instituições da Sociedade Civil são motivadas, sim, pela energia de voluntários e pelo seu objetivo de melhorarem a qualidade de vida da comunidade. São instituições privadas, dedicadas ao bem público.

Quando falo de uma Sociedade Civil vital, penso nos esforços inovadores no campo da educação, desde a primeira infância até aos programas avançados de pós-graduação. Penso em agentes inovadores na área da saúde, estejam estes a alargar os cuidados materno-infantis de qualidade ou a criar novas instalações de cuidados terciários. Penso nos esforços de promoção das artes e da cultura, de melhoria da qualidade ambiental e do estímulo à investigação científica. A Sociedade Civil inclui uma série de grupos profissionais, operários, étnicos e religiosos e também uma vasta gama de organizações não-governamentais - ONG.

Concentro-me na Sociedade Civil porque considero que o seu potencial é muitas vezes subestimado quando nos vemos absortos em debates acerca dos programas mais eficazes dos governos e outros, ou sobre as estratégias de negócios mais bem-sucedidas. Mas, na verdade, muitas vezes é a qualidade do terceiro sector, a Sociedade Civil, que faz a diferença. Esta não só complementa o trabalho dos sectores privado e público, como muitas vezes ajuda a completar esse trabalho.

Da mesma forma, existe muita coisa que os líderes do sector empresarial e do governo podem fazer para fortalecer o trabalho da Sociedade Civil, no sentido de providenciar à sociedade civil aquilo a que chamei um “Ambiente Propício”.

Em suma, acredito que o progresso social exigirá contribuições de qualidade de todos os três sectores: público, privado e Sociedade Civil. O progresso sustentável terá por base um banco de três pernas. E esse progresso poderá tornar-se particularmente impressionante se os três sectores trabalharem juntos.

Um exemplo relevante que conheço bem de uma cooperação desse género é a barragem de Bujagali, no Uganda - um projeto no qual o nosso Fundo de Desenvolvimento Económico se juntou ao governo do Uganda e a um fundo de investimento privado com sede nos Estados Unidos. Todos os três sectores; o público, o privado e a sociedade civil criaram este projeto em conjunto que, apenas três anos depois, já produz quase metade da energia elétrica do Uganda.

Outro exemplo é o Parque Nacional do Mali - inaugurado em Bamako em 2010 - que nasceu de uma parceira entre o Fundo para a Cultura e o governo nacional para criar não apenas um glorioso espaço verde, mas também uma infraestrutura que assegurasse a sustentabilidade do Parque a longo prazo.

Um terceiro exemplo é a iniciativa na área da educação na África Oriental por parte da nossa Rede, que consistiu num investimento de 10 milhões de dólares por ano, e que abrange cerca de 400 000 estudantes e 6000 professores, trabalhando em estreita colaboração com agências governamentais de educação e organizações comunitárias locais.

Podia continuar a citar mais exemplos. Mas apesar destes casos de sucesso, o papel da Sociedade Civil é muitas vezes mal interpretado ou tomado por garantido. A Sociedade Civil tem sido, por vezes, marginalizada, desconsiderada ou descartada. Um desenvolvimento inquietante tem sido a diminuição do apoio internacional; cerca de dois terços dos países da África Subsaariana enfrentam uma redução no apoio ao desenvolvimento no ano de 2017.

Ainda mais perturbadores foram os esforços levados a cabo em alguns lugares para restringir ou mesmo reprimir estas instituições, estereotipando-as como ilegítimas, inelegíveis e irresponsáveis. Estas atitudes podem simplesmente refletir uma certa relutância face à partilha do poder e da influência, ou talvez um sentimento de que a energia criativa e a pura diversidade da Sociedade Civil são intimidantes e perigosas.

Essas atitudes têm sido uma exceção, mas são altamente lamentáveis, desencorajando as qualidades de visão, inovação e pensamento progressivo que tanta falta fazem às sociedades progressistas.

Mas também há boas notícias. Pois, a um nível elementar, as culturas de África representam um bom presságio para um futuro com uma Sociedade Civil vibrante e saudável.

Durante séculos, a vida africana tem sido caracterizada por uma vasta gama de grupos informais indígenas, sustentada por doações de cidadãos e por serviço voluntário. Incluem grupos étnicos e de parentesco, conselhos de anciãos, entidades religiosas e fóruns comunitários. Muitos africanos cresceram no meio destes agrupamentos, aprendendo a dar importância aos seus interesses mútuos, a reunir os seus recursos e a partilhar o trabalho de formação das suas comunidades locais. Faz parte do Estilo Africano.

A influência da Sociedade Civil também foi sentida em momentos cruciais da história recente do continente, como por exemplo: na formação dos Acordos de Arusha que acabaram recentemente com 12 anos de guerra civil no Burundi, na resolução pacífica dos violentos confrontos no Quénia após as eleições de 2007, na elaboração de uma nova e promissora Constituição tunisiana, e na corajosa resposta à crise do Ébola. Penso igualmente nos jovens africanos sofisticados que têm incubado iniciativas de destaque no âmbito da internet para expandir e coordenar uma série de atividades da sociedade civil, com um alto impacto social.

Em conclusão, existem muitas razões para acreditar que este é o momento de África e que os africanos irão aproveitá-lo. Entre esses elementos positivos está um crescente sentimento de confiança que incentiva os africanos a trabalharem juntos atravessando antigas linhas de divisão, incluindo compromissos de cooperação com as instituições da Sociedade Civil. A crescente vitalidade da Sociedade Civil deve ser um ponto-chave para encorajar o investimento em África. Se estiver evoluída e ativa, é a melhor impulsionadora do desenvolvimento. Estou certo que pode ser uma força fundamental para aproveitar o momento de África e tirar daí o máximo partido.

Obrigado.