Está aqui

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  • Carlos Moedas, Comissário Europeu responsável pela Investigação, Ciência e Inovação, a proferir o discurso de abertura, em Lisboa, em 13 de Abril de 2019.
    AKDN / Jorge Simão
Jantar do Conselho de Administração da AKU e dos seus parceiros portugueses

Sua Alteza o Aga Khan, muito obrigado
Princesa Zahra Aga Khan
Meu querido amigo, ex-Vice-Primeiro Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas
Presidente Haile Debas
Presidente Firoz Rasul, obrigado pela sua introdução
Meu querido amigo embaixador Nazim Ahmad, um grande amigo de longa data e um grande homem
Distintos administradores da Universidade Aga Khan
Caros Amigos

Muito obrigado por este convite. Devo dizer que tenho uma enorme admiração pela sua comunidade, Sua Alteza, e pela sua liderança.

E lembro-me das conversas que tive com Nazim Ahmad e outros membros da sua comunidade, numa altura em que eu estava no governo, o que me fez pensar, antes de vir para aqui, nas duas razões pelas quais respeito tanto a sua liderança. A primeira é que, enquanto líder supranacional, Vossa Alteza foi sempre um construtor de pontes - o senhor construiu literalmente pontes -, mas foi um daqueles homens que construiu efetivamente pontes para nos ligar a todos nós, e isso é algo de que precisamos hoje. E enquanto líder religioso, creio que o senhor também tem algo que sempre me inspirou, que é esse elo que sempre estabelece entre a espiritualidade e os problemas atuais. A espiritualidade e a solução para os problemas que temos, desde as alterações climáticas à desigualdade. E isso é extremamente inspirador, e é por isso que pensei na ciência como a principal ferramenta que temos para resolver esses problemas. Para fazê-lo realmente acontecer.

E o senhor ama a ciência, até ouvi dizer que foi aceite no MIT a certa altura da sua vida mas que decidiu ir para Harvard, um erro que eu também cometi!

Por isso, esta noite, queria falar acerca daquilo que me foi pedido, que é esta ligação entre ciência e educação. E o impacto das políticas que temos a nível europeu na área da ciência e qual o seu impacto na educação.

Certo dia, num dos seus discursos, o senhor falou sobre a sua ideia de educação, e disse que “a educação significa equipar cada geração para que seja um participante efetivo”, naquilo a que chamou a “grande conversa dos nossos tempos”.

E a questão é: qual é a grande conversa dos nossos tempos? E a grande conversa dos nossos tempos é na verdade bem simples, é sobre como enfrentar estes problemas que temos no mundo, que são globais, supranacionais, num mundo cada vez mais fragmentado?

E essa discussão hoje, que parece ser acerca de multilateralismo ou política, na verdade não é sobre política, é sobre educação. E é sobre educação num mundo que mudou muito, mas no qual os sistemas educacionais não se modificaram.

E nós olhamos para o mundo em que nascemos, um mundo onde tudo era basicamente racionalizado. Tudo girava em redor da geografia, das disciplinas, das fronteiras. E hoje em dia o mundo constrói-se em torno de intersecções. E considero que é aí que a educação deve atuar. E ainda não defendemos e discutimos essas intersecções.

Pensei em falar-vos sobre aquilo que considero serem essas intersecções, e a importância que elas têm.

Em primeiro lugar, temos uma intersecção entre disciplinas e geografias.

E a ciência é um ótimo exemplo disso, uma vez que a ciência esteve sempre ao virar da esquina. Porque se pensarmos nos novos avanços científicos, eles estão todos nessa intersecção. Na intersecção de disciplinas, na intersecção de países, de religiões.

A semana passada, tive um dos meus melhores dias na Comissão Europeia. Tivemos a incrível oportunidade de anunciar a primeira fotografia de um buraco negro. Imaginem, eu estava lá com os cientistas a anunciar a primeira fotografia de algo que nunca havíamos tido uma imagem: um buraco negro. E nesse dia, pensei nisso, porque estávamos a realizar seis conferências de imprensa em todo o mundo ao mesmo tempo. Nós estávamos em Bruxelas, Francis Cordoba estava em Washington, havia na equipa mais de 200 cientistas de 40 nacionalidades diferentes, de diferentes países, religiões diferentes, todos a trabalharem. Mas todos a trabalhar para quê? Para provar aquilo que um homem sozinho imaginou há 100 anos. Em 1915, Einstein, sozinho, escreve quatro artigos que mudam o mundo.

Por isso, se quisermos realmente mudar a educação, temos de mudar isso, temos de mudar o modo como ensinamos. E temos de mudar a forma como ensinamos porque temos de ensinar melhor a essência das disciplinas para que as pessoas se sintam à vontade a navegar nas intersecções. Testemunho isso sempre que vou às cerimónias do Prémio Nobel. Este ano, tivemos Frances Arnold. É a quinta mulher a receber o Prémio Nobel de Química. Ela começou por estudar literatura russa, depois foi engenheira mecânica. Aos 30 anos, ela gostava de química e acabou por trazer a biologia para a química. Ela basicamente usa a evolução para transformar plantas em combustível para aviões. Considero esta uma história incrível e mostra como hoje em dia não estamos a lidar com estas intersecções na maioria dos países europeus e creio que também em muitas outras partes do mundo. Ainda não sabemos como lidar com isso, tivemos uma primeira experiência na Finlândia de ensinar aos jovens estudantes da escola secundária não apenas as disciplinas, mas também a saberem observar certos eventos de diferentes ângulos, como a II Guerra Mundial. Como podemos olhar para isso ao nível da sociologia, da antropologia ou da matemática? Por isso, temos mesmo de caminhar nessa direção.

A segunda intersecção de que gostaria de vos falar hoje é esta intersecção a que chamo do sonho e do detalhe. Nós temos de sonhar, mas também temos de nos focar nos detalhes. Retirei esta ideia a partir de um bom amigo, Jim Snabe, fundador da SAP, que escreveu um livro acerca disto, acerca desta outra intersecção. Porque se quisermos ser realmente bons nas intersecções, temos de ser realmente bons na essência das disciplinas. E para fazermos isto, temos de estar verdadeiramente focados. Se quisermos ter momentos criativos, temos de estar focados todos os dias.

E há uma história que adoro e que pensei em contar-vos, que é de um dos meus livros preferidos. Walter Isaacson escreve sobre Steve Jobs e conta uma história muito interessante. Quando Steve Jobs era muito jovem, o seu pai pediu-lhe para pintar e consertar a cerca à volta da casa. E Steve Jobs foi e pintou e consertou a cerca toda, e quando o pai chegou, disse-lhe que havia uma parte da cerca que não estava pintada nem consertada. E ele respondeu: "Não, porque essa parte está escondida atrás daquela árvore, nunca ninguém vai reparar." E o pai disse: “Sim, ninguém vai ver isso. Mas tu vais saber que está assim." E anos mais tarde, quando ele estava a lançar o Macintosh, lembrem-se que o Macintosh era uma caixa enorme, ele reparou que as placas de chips e os fios estavam um caos. Ele olhou para os engenheiros e disse: “Não, isto não pode ser assim. Está tudo uma confusão." E os engenheiros responderam: "Olhe, mas não precisamos de arranjar isto porque ninguém vai vê-lo." E ele disse: "Mas vocês vão saber que está assim." Ele parou a expedição durante seis semanas, o que representou muito dinheiro, mas no fim todos os detalhes dentro daquela caixa tinham sido tidos em conta.

A questão é que se não nos concentrarmos no detalhe, não existe criatividade. Os escritores trabalham e escrevem todos os dias, mesmo que não queiram escrever, mil e duas mil palavras todas as manhãs. E eu creio que isso foi algo que também perdemos na educação, porque o sonho é a inspiração, mas o detalhe é aquilo que temos de fazer todos os dias, para fazer o sonho acontecer. E nós vivemos num mundo de tecnologia onde dizemos aos nossos filhos que é tudo muito fácil e olhamos para o ecrã, mas sabemos que temos tudo para acertar os detalhes.

A terceira intersecção de que gostaria de vos falar, a qual tem sido uma das minhas paixões nos últimos cinco anos, é a intersecção entre os mundos físico e digital. Porque creio que hoje temos engenheiros muito bons que são ótimos no lado mais físico da engenharia, temos pessoas muito boas em TI, que são muito boas no digital, mas ninguém é bom nessa intersecção.

E uma das histórias que me inspiraram nestes cinco anos foi a de uma grande mulher que conheci há dois anos, uma excelente professora da Universidade Aga Khan chamada Marleen Temmerman. É uma mulher incrível. Soube da história através de Marleen no âmbito de um prémio na área do parto e da maternidade que entregamos todos os anos na Comissão, e decidi partilhá-la convosco. Era sobre um jovem, Joshua Okello, que nasceu no Uganda e que também inspirou a vossa universidade.

Joshua era estudante de medicina e cedo teve noção de uma realidade chocante: a cada minuto morre uma mãe devido a problemas relacionados com a gravidez ou o parto, e 99% das mulheres que morrem vivem na África subsaariana. E então pensei que tinha de fazer algo em relação a isso. Ele estava na faculdade de medicina e decidiu ajudar as parteiras. Foi às áreas rurais e basicamente perguntou "Qual é o principal instrumento de uma parteira na África rural?" E é algo chamado estetoscópio de Pinard. É um instrumento do século XIX. Imaginem um cone oco que se coloca no abdómen da mulher grávida e com o qual se tenta ouvir o bebé. Mas isso exige muito treino, as melhores parteiras faziam-no muito bem, mas são precisos anos de experiência, se tentarmos simplesmente ouvir, não vamos ouvir nada.

Então, ele disse "Vou desistir da faculdade de medicina", e desistiu. A sua ideia era simples: ligar o estetoscópio de Pinard a um smartphone, e deste modo fez com que os trabalhadores sem formação ligassem o estetoscópio de Pinard a um telemóvel e enviassem os dados para uma nuvem, ficando disponíveis para serem consultados por qualquer médico de um bom hospital da capital do país. E acho esta história incrível, porque demonstra como um jovem sentiu que não estava a receber formação como médico nas áreas que poderiam ajudar as pessoas, que é precisamente nesta intersecção do digital. Eu sei que a vossa Universidade foi inspirada por exemplos como este, porque li que estão a desenvolver um equipamento de ultrassom portátil, que é algo acerca do qual estaria muito interessado em falar convosco no futuro.

Considero que este grande exemplo do Joshua deve fazer-vos pensar enquanto universidade sobre que tipo de formação querem dar aos vossos alunos? Formá-las para uma profissão que provavelmente não existirá daqui a 20 anos?

Eu estava em Carnegie Mellon e o meu amigo Subra Suresh disse-me: “Estamos a mudar tudo. Se alguém gostar de música e física, que venha ter connosco, nós criamos um curso de música e física. Se alguém gostar de TI e medicina, a mesma coisa."

Esta ideia de que as universidades estão a preparar os alunos para uma profissão: Sim, mas é necessário ter a liberdade para desenvolver algo à volta disso nessas intersecções.

Por isso considero, Vossa Alteza, senhoras e senhores,

que a grande conversa dos nossos tempos está exatamente aqui. Como é que podemos, num mundo globalizado, manter alguma da nossa humanidade? E fazemos perguntas acerca do que será o futuro dos nossos filhos, acerca do que lhes iremos ensinar e como serão educados, mas a grande questão é: como é que lhes damos um objetivo?

E creio que a resposta para a questão do objetivo encontra-se exatamente nestas interseções, porque estas interseções são aquilo que nos torna humanos. Porque as máquinas farão a maior parte de tudo o resto. As máquinas podem ter todos os números e nós podemos digitalizar tudo, mas não poderemos digitalizar estas intersecções no futuro, pelo menos até ao ponto da singularidade. E julgo que se pensarmos nestas intersecções como uma forma de nos transportar para o futuro enquanto seres humanos melhores que são complementares às máquinas e não enquanto algo que as máquinas simplesmente irão substituir, então teremos aí uma visão de futuro.

E essa é a visão que propusemos para a Europa em relação a esta IA para a humanidade. Uma visão na qual a IA nos ajuda a sermos mais humanos e melhores pessoas. E creio que, no futuro, será esse o desafio.

Gostaria de terminar dizendo que Vossa Alteza é uma inspiração enquanto pessoa, enquanto homem, enquanto líder religioso, mais que não seja pelos seus discursos sobre o tema da educação. Estive a ler algo que o senhor disse e é exatamente aquilo que penso. O senhor disse: “O défice de conhecimento está presente em muitas áreas que não estão a ser disponibilizadas no sistema educacional [...]. Porque aquilo que tem sido herdado são currículos do passado, reflexões do passado, atitudes do passado, em vez de se olhar para a frente e perguntar o que é que as gerações futuras precisam de saber."

Muito obrigado, Vossa Alteza, pela sua inspiração e muito obrigado a todos os presentes aqui esta noite.