Está aqui

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  • Sua Alteza o Aga Khan dirige-se aos membros do Parlamento Português no Conselho do Senado no edifício do Parlamento Português.
    AKDN / Moez Visram
Discurso ao Parlamento de Portugal

Bismillah-ir-Rahman-ir-Rahim

Sua Excelência, o Presidente do Parlamento, Eduardo Ferro Rodrigues,
Ilustres Membros do Governo e Deputados do Parlamento,
Distinto Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina,
Suas Excelências,
Ilustres convidados,
Senhoras e Senhores,

Permitam que comece por expressar a minha mais sincera gratidão ao Presidente e aos deputados do Parlamento pela forma calorosa como fui recebido neste local magnífico, e ao Presidente da República por me ter convidado a visitar Portugal.

Reconheço a grande honra que é ter sido convidado para falar hoje perante todos vós.

É sempre para mim um prazer pessoal regressar a Portugal. Guardo lembranças maravilhosas das minhas visitas anteriores - incluindo a generosa hospitalidade dos últimos cinco Presidentes do Parlamento. Portugal é certamente um lugar ideal para concluir o aniversário do meu Jubileu de Diamante - que celebra o meu sexagésimo ano como Imam dos muçulmanos xiitas ismailis. 

Durante este ano de Jubileu, visitei comunidades ismailis em muitas partes do mundo. E estas celebrações do aniversário chegam agora a uma feliz conclusão aqui em Portugal, amavelmente facilitada pela forte colaboração do serviço diplomático português no estrangeiro, e pela administração pública aqui em Lisboa.

Foi-me comunicado que vieram até cá esta semana cerca de 40 mil membros da comunidade ismaili para participar nas nossas celebrações do Jubileu. Durante a sua estadia, irão obviamente ter a oportunidade de descobrir Portugal, muitos deles pela primeira vez. Neste sentido, irão juntar-se a uma grande onda de visitantes estrangeiros que fizeram de Portugal um dos destinos de viagens com um crescimento mais rápido a nível mundial.

É claro que quando usamos a palavra “descobrir” em relação a Portugal, recordamos imediatamente o papel proeminente que Portugal desempenhou na grande Era dos Descobrimentos - há mais de 500 anos. O espírito de descoberta - de alcançar, ligar e relacionar, tem sido um ponto central da cultura portuguesa.

Foi aqui, na Península Ibérica, entre os séculos VIII e XVI, que se escreveu a História de Al-Andalus - numa altura em que as administrações muçulmanas trabalharam de forma construtiva com pessoas da fé cristã e judaica, vendo numa diversidade de talentos e energias uma fonte de força e não uma causa de divisão. 

Esta perspetiva pluralista refletiu-se em muitos aspetos ao longo da história de Portugal - e tem vindo a expressar-se de forma vigorosa no recente ressurgimento deste país enquanto um líder influente na cena mundial. Penso nos papéis importantes desempenhados por líderes portugueses nas Nações Unidas e na UNESCO, na Comissão Europeia, e – desde a semana passada - na Organização Internacional para as Migrações, só para referir alguns exemplos.

Nas minhas viagens por todo o mundo ao longo dos últimos anos, um dos desenvolvimentos mais promissores que identifiquei é o surgimento de países com potencial para se tornarem “Países de Oportunidade”. E sem dúvida que Portugal tem feito por merecer um lugar de destaque nessa lista. 

Tornar-se um País de Oportunidade não é uma tarefa fácil, é algo no qual as pessoas e o governo de uma nação devem trabalhar, de forma criativa, paciente e persistente. 

Um País de Oportunidade é um país que se baseia nos pontos fortes do seu passado, abordando ao mesmo tempo os seus problemas, adotando valores duradouros, sempre com respeito pelos diversos pontos de vista. Os Países de Oportunidade valorizam as estruturas legais que criem um clima de previsibilidade e confiança, um ambiente propício a uma mudança criativa. 

Um País de Oportunidade é um país que estimula a cooperação entre as diversas partes interessadas, fomentando parcerias entre o governo e o sector privado, por exemplo, incentivando ao mesmo tempo as organizações privadas que são criadas para responder a objetivos públicos, aquilo que geralmente designamos como Instituições da Sociedade Civil.

É com estes fatores em mente que podemos hoje considerar Portugal como um País de Oportunidade, um país que procura honrar tanto as suas conquistas passadas como as suas oportunidades futuras, e abraçar tanto a dádiva da estabilidade social como a promessa de progresso social. E o Parlamento de Portugal tem de ser elogiado pelo seu papel nessa história encorajadora. 

O meu ponto de vista acerca deste assunto já foi amplamente partilhado. Um exemplo é o Índice Global da Paz para 2018, um relatório para o Instituto para Economia e Paz. O Índice Global da Paz avalia cerca de 23 fatores económicos, sociais e políticos que contribuem para sociedades pacíficas em 162 países. E não foi uma surpresa verificar que, entre todas as nações do mundo, Portugal está entre os cinco primeiros.

Foi à luz destes valores que assinámos um acordo histórico em Lisboa em 2015 - um Acordo para a criação aqui de uma nova sede do Imamat Ismaili. Isto significa que Lisboa, já por si uma das principais cidades de intersecção a nível internacional, irá igualmente funcionar como um ponto central de ligação para a comunidade ismaili mundial. 

Depois da sua assinatura há três anos, este Acordo foi aprovado pelo Parlamento de Portugal, e hoje tenho o prazer de agradecer pessoalmente ao Parlamento pela vossa ratificação favorável. 

É claro que podemos recuar bastante na história do envolvimento dos ismailis com Portugal - até à época em que os ismailis se estabeleceram nos territórios portugueses na Índia no século XVII, ou quando os colonos ismailis chegaram a Moçambique. Outro momento digno de destaque foi o modo generoso como Portugal acolheu os muitos ismailis que fugiram da guerra civil moçambicana há quase meio século. 

Desde então, a ligação dos ismailis a Portugal foi aumentando. A Fundação Aga Khan foi fundada em Portugal em meados da década de 1980. Em 1998, criámos um novo Centro Ismaili em Lisboa. Foram assinados protocolos de cooperação entre o Imamat e Portugal em 2005, em 2008, em 2009 e em 2016, assim como um Memorando de Entendimento entre a Universidade Aga Khan e a Universidade Católica Portuguesa. 

Vem-nos à cabeça a palavra dinâmica! Aquilo que celebramos hoje é um progressivo sentido de dinâmica - um espírito de parceria progressiva entre a nação portuguesa e o Imamat Ismaili.

Os ismailis são hoje uma comunidade altamente diversificada, a viver em mais de 25 países, principalmente no mundo em desenvolvimento, mas com números a crescer na Europa e na América do Norte.

O Imamat Ismaili, como devem saber, é uma instituição internacional com 15 séculos e que remonta à época do Profeta Maomé (que a paz esteja com Ele e com a sua Família). Isto significa que, quando herdei o meu cargo, há apenas 61 anos, tornei-me o 49.º Imam hereditário dos muçulmanos ismailis. 

Ao longo dos séculos, a Sede do Imamat Ismaili foi sendo formalmente definida num ou mais locais pelo Imam-da-Época, dependendo das exigências da altura. Já conheceu muitos lares ao longo dos anos - por toda a Península Arábica, no Médio Oriente, no sul da Ásia e no norte da África. Mudou-se para o Cairo no século X, altura em que os meus antepassados fundaram a cidade. 

A decisão de estabelecer uma nova Sede aqui em Portugal, a convite do seu Governo, foi tomada depois de muita reflexão e discussão. Representa um verdadeiro marco fundamental na longa história do Imamat. 

A autoridade do Imam Ismaili é de natureza espiritual e não temporal. Ao mesmo tempo, na essência do Islão está a crença de que os mundos espiritual e material estão indissociavelmente ligados. Isto significa que o Imam-da-Época tem também a responsabilidade de melhorar a qualidade de vida - a qualidade da vida mundana - do seu povo e dos povos com quem os ismailis vivem. É com o intuito de promover estas responsabilidades que tenho vindo a prestar tanta atenção ao longo destes 60 anos não apenas ao fortalecimento das capacidades do Imamat para o cumprimento do seu mandato, mas também ao trabalho daquilo a que chamamos hoje a AKDN - a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento.

A AKDN inclui uma variedade de agências que trabalham nas áreas de desenvolvimento económico, educação, saúde e enriquecimento cultural. O nosso objetivo fundamental passa por fazer o que pudermos para ajudar a melhorar a qualidade da vida humana. E é esse o espírito que continuará a inspirar a nossa parceria com o povo e o Governo de Portugal. 

Sabemos que os próximos tempos serão exigentes, um período de profundas mudanças globais. O desenvolvimento a nível económico está a criar novas perspetivas de influência no Oriente Global e uma nova sensação de esperança no Sul Global. Um novo estudo sugere que dois terços do crescimento mundial nos próximos anos estarão centrados em cidades do mundo em desenvolvimento. 

Ao mesmo tempo, as novas tecnologias de comunicação e transportes estão a interligar e a aproximar o mundo mais do que nunca. 

Que irão significar para nós estas novas realidades? Por um lado, temos de reconhecer, de forma realista, que o nosso mundo interligado poderá provocar um crescente sentimento de desconfiança, medo e talvez até de desorientação ao olharmos para o futuro. Infelizmente, os vários povos podem por vezes interpretar as suas diferenças como ameaças e não como oportunidades, definindo a sua própria identidade por aquilo que rejeitam, e não por aquilo que defendem. 

Por outro lado, uma maior proximidade nas interações no nosso mundo também irá produzir novas e maravilhosas oportunidades de cooperação criativa, interdependência saudável, novas descobertas e um crescimento inspirador. Quando isso acontece, a oportunidade de nos envolvermos com pessoas que são diferentes de nós não tem de ser vista como um fardo, mas sim como uma bênção.

A atitude de acolhimento é frequentemente descrita como uma perspetiva pluralista. Foi esse o auspicioso conceito na base de um dos nossos principais projetos da AKDN, a criação, em conjunto com o Governo do Canadá, do Centro Global pelo Pluralismo em Ottawa. Desde a sua fundação, há 12 anos, o Centro tem vindo a trabalhar para promover aquilo a que todos chamamos Ética Cosmopolita. A promoção de uma Ética Cosmopolita forte no nosso mundo é certamente um desafio central do nosso tempo.

Portugal é um exemplo muito encorajador no combate a esse desafio. Uma Ética Cosmopolita contribuiu abundantemente para a cultura portuguesa no passado e sei que irá continuar a estimular o futuro deste país. É um valor que será potenciado intensamente com a nossa parceria contínua, através da criação, aqui em Lisboa, uma cidade com uma verdadeira visão global, de uma nova sede do Imamat, uma instituição global determinada. 

O Imamat Ismaili tem todo o orgulho em transferir algumas das suas atividades para o magnífico e histórico Palacete Mendonça. Nesse local iremos instalar o nosso Departamento de Assuntos Diplomáticos e o nosso Departamento de Instituições Jamati. Estamos a planear organizar, aqui em Lisboa, a reunião do próximo ano da Direção do Centro Global pelo Pluralismo, assim como a primeira edição do Prémio Aga Khan para a Música. E muito mais se seguirá.

E assim, prossegue o nosso planeamento. Temos a noção de que enfrentamos um futuro exigente. Mas à medida que nos envolvemos com as suas exigências, o Imamat Ismaili sairá reforçado da nossa permanente parceria com o povo e o Governo de Portugal. 

Avancemos, portanto, em conjunto, unidos pelo nosso passado comum, comprometidos com os nossos valores partilhados e inspirados pelas nossas expetativas mútuas de um futuro construtivo e objetivo.

Obrigado.