Está aqui

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  • Sua Excelência Benjamin William Mkapa, ex-Presidente da República Unida da Tanzânia, foi o Convidado Principal da Cerimónia de Entrega de Diplomas da AKU em Dar es Salaam, na Tanzânia.
    AKU
15ª Cerimónia de Entrega de Diplomas da Universidade Aga Khan em Dar es Salaam, Tanzânia

Presidente Firoz Rasul,

Membros do Conselho de Administração da Universidade Aga Khan, 
Membros do Governo e do Corpo Diplomático, 
Ilustres convidados,

E, mais importante, os nossos alunos licenciados:

É maravilhoso estar aqui hoje para celebrar a graduação da Turma de 2019.

É comum em ocasiões como esta os oradores dizerem que estão honrados por terem sido convidados. No meu caso, não é um mero lugar-comum.

Durante cinco anos, fiz parte do Conselho de Administração da Universidade Aga Khan. Testemunhei a paixão de Sua Alteza o Aga Khan e dos meus colegas membros do Conselho pela melhoria da qualidade de vida em África e na Ásia. Quando dizem que os quatro pilares da AKU são a qualidade, o impacto, o acesso e a relevância, estão mesmo a falar a sério. Quando dizem que estão comprometidos em formar líderes que façam a diferença na vida de outras pessoas, estão mesmo a falar a sério. Para além disso, a expansão do Hospital Aga Khan demonstra como Sua Alteza o Aga Khan está comprometida em investir na Tanzânia e no seu povo.

Por isso, quando digo que é uma honra estar aqui, estou mesmo a falar a sério.

Caros licenciados, é com grande prazer que vos dou os parabéns pela conclusão dos vossos cursos. Eu sei que o vosso caminho não foi fácil. Mas se a montanha não fosse íngreme e a subida não testasse a vossa determinação, a vista não seria uma revelação ou uma inspiração tão grande. Agora estão no auge e as oportunidades estendem-se perante vocês.

Como disse o Presidente Rasul, a entrega dos diplomas é um dia em que comemoramos o vosso sucesso e aspiramos ao impacto que vocês virão a ter sobre os vossos alunos, pacientes, sobre a vossa profissão e país.

Não tenho dúvidas de que terão um impacto positivo em milhares de vidas ao longo das vossas carreiras. Confio no vosso talento, na vossa determinação e na qualidade da formação que vocês receberam.

Contudo, não resisto à tentação de partilhar convosco um pouco da minha sabedoria. Existem qualidades que podem demonstrar, ações que podem concretizar e atitudes que podem adotar as quais acredito fortemente que irão maximizar o vosso sucesso enquanto líderes nos próximos anos. Por isso, permitam que partilhe algumas recomendações baseadas na minha longa experiência.

Entre as lições mais importantes que aprendi com o Pai da nossa Nação está a importância de pedir aconselhamento com regularidade e escutar com atenção antes de tomar decisões.

Sempre que ele enfrentava um grande problema, ele buscava uma vasta gama de perspetivas. Ele sabia que não tinha o monopólio da sabedoria ou da virtude. Por mais humilde que as pessoas fossem, independentemente das suas falhas ou motivos, ele escutava-as sempre atentamente, buscando a essência da verdade ou a visão que estas tinham para partilhar.

Eu tentei sempre seguir o seu exemplo a este respeito, e as minhas tomadas de decisão foram, sem dúvida, mais capazes devido a isso. Temos de deixar para trás o estilo monárquico de liderança. Esse tempo já lá vai. O nosso país é diversificado e pluralista, e o nosso mundo é-o ainda mais. É apropriado liderarmos de uma forma consultiva.

Ao mesmo tempo, depois de escutarmos atentamente os pontos de vista dos especialistas e das pessoas comuns, dos poderosos e especialmente daqueles que não têm poder - é necessário ser determinado e perentório. É preciso articular um plano de ação e comunicar a sua lógica de forma clara, tanto àqueles que o irão pôr em prática como aos que serão afetados por ele.

A seguir vem a parte mais difícil: dar continuidade e obter resultados. É essencial ser perseverante, responsabilizarmo-nos e aos outros para alcançar o resultado desejado. Muitas vezes na minha carreira, tenho observado visões a serem propostas mas sem que se faça muito para que sejam postas em prática. Um líder não deve ter medo de fazer o trabalho pesado ao lado dos seus colegas, ou fazer aquilo que ele pediu ou defendeu que outros fizessem.

No início da minha carreira, era um acérrimo defensor do serviço militar. Fui criticado por alguns, que me diziam que eu estava a pedir aos outros que fizessem aquilo que eu não tinha feito. Assim, avancei e fui como voluntário para o serviço militar, deixando o meu emprego durante vários meses para trabalhar ao lado dos meus compatriotas tanzanianos. Foi uma experiência à qual sempre dei muito valor. Ver agricultores analfabetos e licenciados universitários a trabalharem em conjunto foi uma inspiradora chamada da atenção para a necessidade de união na nossa nação. O meu serviço sossegou os céticos. Mostrou que eu estava preparado para agir de acordo com as minhas convicções.

No entanto, não devemos permitir que a convicção se transforme em teimosia. O mundo está em constante mudança e, quando os fatos se alteram, devemos reconsiderar os nossos pontos de vista. Foi o próprio Mwalimu que defendeu de forma mais veemente a transição de um estado monopartidário para um sistema de multipartidarismo. Ele havia acompanhado de perto a agitação causada por mudanças que estavam a ocorrer em outros países e sentiu os primeiros tremores de insatisfação no nosso próprio país.

Ele disse: "Temos de ser nós a mudar ou seremos mudados por outros... Seremos arrastados pelas ondas." Com a sua determinação, continuou a estar disposto a aprender, a crescer e a mudar com os tempos.

Se há uma coisa que acredito que tenha definido a minha carreira tanto dentro como fora do governo é a preocupação pela pessoa comum. Nada me incomoda mais do que ver aqueles que pouco têm a serem vítimas dos que têm muito. Nas cerimónias fúnebres de Mwalimu, eu disse: “O nosso mundo é composto por aqueles que dão e por aqueles que tiram. Os que tiram podem comer melhor, mas aqueles que dão dormem melhor." Dar é manter presente que temos uma dívida para com aqueles que servimos, por muito alto que tenhamos subido na vida.

Vocês são professores e médicos. Vocês têm uma enorme responsabilidade. O futuro do nosso país depende da qualidade da educação que vocês irão passar aos nossos jovens. Depende da vossa capacidade de evitar o sofrimento desnecessário e de devolver aos doentes a saúde, a felicidade e a produtividade. Precisamos que vocês reforcem os benefícios da ciência, do conhecimento e da tecnologia junto daqueles que continuam a ser marginalizados. Sejam aqueles que dão, e não aqueles que tiram.

Ao recordar a minha carreira, vejo muitos pontos de viragem. Hoje, vou destacar apenas um: o momento em que Mwalimu me convidou para sua casa no início da minha carreira. Lembro-me de estar deslumbrado na sua presença, de imaginar que assunto poderia ele ter para falar comigo. Para minha grande surpresa, ele pediu-me para ser editor do jornal do partido. Eu não sabia quase nada sobre a gestão de um jornal. Mas percebi que era um desafio que não podia recusar. Disse que sim. Esta decisão moldou o resto da minha vida, de várias formas.

Caros licenciados, não fujam dos desafios. É a nossa resposta às questões mais complicadas que nos definem. É a prontidão para enfrentá-las que faz de alguém um líder.

Gostaria de terminar com a citação que encerra o meu livro de memórias, com o título A Minha Vida, O Meu Propósito. É da autoria do rabino Harold Kushner. Ele diz:

As nossas almas não têm fome de fama, conforto, riqueza ou poder. Estas recompensas criam quase tantos problemas como aqueles que resolvem. As nossas almas têm fome de significado, da sensação de descobrirmos como viver as nossas vidas para que sejam importantes, para que o mundo seja pelo menos um pouco diferente depois de termos passado por ele.

Caros licenciados, desejo-vos tudo de bom nas vossas vidas e nas vossas carreiras. Que vivam para que as vossas vidas sejam relevantes, e que o mundo se torne um lugar melhor por terem passado por ele.

Obrigado.