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  • Depois de concluir o seu Bacharelado em Enfermagem (BScN) na AKU-SONAM, Rose Kiwanuka criou a Associação de Cuidados Paliativos do Uganda. Hoje, dos 112 distritos do Uganda, mais de 95 possuem centros de cuidados paliativos.
    AKU
Rose Kiwanuka: Uma pioneira nos cuidados paliativos no Uganda

Rose Kiwanuka ficou muito entusiasmada quando se matriculou na Escola de Enfermagem de Nsambya. Desde a escola primária que vinha mostrando interesse no bem-estar das pessoas enquanto Delegada de Saúde. Após três meses de curso em Nsambya, Rose e os seus colegas foram colocados em enfermarias de hospital para começar a pôr em prática procedimentos simples, como a verificação da temperatura, peso e pressão arterial dos pacientes.

“Uma das minhas experiências mais traumatizantes quando comecei foi quando me fizeram observar um paciente em estado terminal, com falta de ar. Senti um pânico tão grande que acabei por sair do quarto. Uma enfermeira sénior foi atrás de mim e aconselhou-me a ser forte”, relata Rose. Apesar do início periclitante, Rose estava determinada a ser uma enfermeira. Na verdade, essa experiência viria a ser decisiva quando escolheu os cuidados paliativos seis anos depois.

“Um dos maiores desafios enquanto enfermeira foi a minha incapacidade de prescrever fármacos. Os pacientes estavam sempre a pedir analgésicos, mas eu tinha as mãos atadas." À época, não existia nenhuma instituição de formação no Uganda com cuidados paliativos no seu currículo, por isso Rose foi para Oxford, Sunderland e para a Holanda para se formar como enfermeira de cuidados paliativos. Foi a primeira Enfermeira de Cuidados Paliativos Profissional no Uganda.

Em 2013, Rose terminou o seu Bacharelato em Enfermagem (BScN) na Escola de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Aga Khan, na África Oriental (AKU-SONAM EA). Formou-se em 2015, perfeitamente equipada com as competências de liderança e confiança. “Precisava de obter este diploma para me sentir suficientemente competente para interagir com os funcionários do Ministério da Saúde e com as autoridades de saúde a nível distrital acerca da forma de impulsionar a agenda de cuidados paliativos. Para que os cuidados paliativos pudessem ser uma realidade, tive de defender a sua utilização, defendê-los em diferentes contextos para garantir que se criasse uma consciencialização acerca deste tipo de cuidados por todo o Uganda.

Tendo como arma apenas a sua fé, Rose mudou-se para a Associação de Cuidados Paliativos do Uganda - uma organização que a própria fundou enquanto ainda estava empregada. Tinha alguns membros, mas sem empregados ou um escritório. “Eu era a empregada de limpeza, a assistente administrativa, a contabilista e a diretora a nível nacional. Tinha um grande carinho pelos cuidados paliativos, pelo que fui escrevendo relatórios acerca das competências que ia obtendo na AKU. Estes relatórios chamaram a atenção de doadores. Hoje, a associação tem as suas próprias instalações, com vários escritórios e 15 funcionários.”

“Durante as sessões de formação, eu tentei sensibilizar os enfermeiros para o facto de que as doenças como o cancro estarem por toda a parte. Mal sabia eu que isso viria a atingir-me muito mais do que aquilo que havia imaginado." Rose foi diagnosticada com cancro do cólon em 2017. “Fiquei incrédula. Não conseguia admitir que eu - uma pessoa que prestava apoio a pacientes em situações vulneráveis - fosse agora uma doente oncológica."

Foi muito complicado de aceitar, mas Rose acredita que tudo acontece por um motivo. Hoje sente-se contente por ter investido no desenvolvimento dos cuidados paliativos no Uganda, estando hoje a retirar os frutos do seu esforço. “Apesar do choque inicial, fico feliz por não ter enfrentado nenhuma dor física. Tomo a medicação certa e tenho por perto as pessoas para a prescrever e administrar. Para além disso, não tive de suportar qualquer stress psicológico, graças às pessoas que estiveram comigo para me consolar. Foi para isto que sempre trabalhei."

Dos 112 distritos do Uganda, mais de 95 possuem centros de cuidados paliativos. A nível global, o Uganda é o único país onde os enfermeiros podem prescrever morfina a pacientes terminais, de forma gratuita. As conquistas de Rose levaram-na a ser convidada para uma reunião da ONU para falar acerca das melhores práticas e do sucesso deste importante avanço. “Tenho de vencer este cancro. Pelo menos agora, poderei falar de experiência própria quando estiver no terreno. Ainda há muito trabalho a ser feito e eu lá estarei para levar a minha equipa ao sucesso.”

Esta história foi publicada pela primeira vez numa coleção de ensaios fotográficos publicados pelos Enfermeiros e Parteiras da Universidade Aga Khan - Líderes em Cuidados de Saúde na África Oriental.