Esta
cerimónia de Doutoramento H.
C. de Sua Alteza Aga Khan, pela nossa Universidade
de Évora,
tem um fundamento e um significado que ultrapassam
muito a consagração dos altos méritos
pessoais do homenageado, porque a cerimónia
se inscreve, com inteira consciência e intenção
dos promotores, numa desafiante conjuntura. Trata-se
do encontro de todas as áreas culturais do
mundo, e de todas as diferentes perspectivas do mundo
e da vida, a falarem todas com voz própria
pela primeira vez na história da Humanidade,
num contexto de ordem mundial gravemente perturbada.
A desordem, que em muitos aspectos ultrapassa a
capacidade de intervenção das soberanias,
excedidas pela globalização das interdependências,
muitas delas portadoras de rupturas profundas com
os modelos de acção que inspiraram
a criação dos Estados soberanos, desenhou
aberturas para a visibilidade das sociedades civis,
e até para a percepção da sociedade
civil mundial que habita a casa comum que é a
terra.
Não é de estranhar, mas é extremamente
preocupante, que o desenvolvimento deste tecido mundial
de interdependências tenha acentuadamente provocado
uma crise dessa invenção humana que é o
Estado soberano. É também grave que
a debilidade das lideranças do poder político,
que marca a época de acelerada mudança
em que vivemos, seja porventura um dos mais inquietantes
sinais de falta de equação entre os
desafios que enfrentamos e as capacidades das instituições
de que temos experiência no plano da governança
mundial.
Por isso, para além da crise de capacidade
dos componentes da rede dos poderes políticos,
para além da frequente quebra de credibilidade
dos líderes das soberanias ainda definidas
como mais responsáveis, para além dos
efeitos colaterais aleatórios nos povos vítimas
dos abusos de unilateralismos mal geridos, as sociedades
civis alimentam a confiança na direcção
de autoridades que excedem as áreas de influência
das soberanias em crise de poder e de projecto, que
tem o sentido das solidariedades transfronteiriças
e transnacionais, que se orientam pela igual dignidade
dos homens, entre mais razões porque cada
homem é um fenómeno que não
se repete na história da Humanidade.
Na dramática passagem do século XX
para o século XXI, com duas guerras mundiais,
com as guerras marginais do período de cinquenta
anos de guerra fria, com os dramas da descolonização,
com os crimes de guerra, com os crimes contra a humanidade,
com os genocídios, foram homens como Gandhi,
como Luther King, como Mandela, que se elevaram acima
da tormenta, para manter viva a esperança,
para avigorar as vontades de não desistir,
para demonstrar que onde falha o poder não é necessariamente
a ocasião de também falhar a autoridade,
o carisma, o poder dos que não tem poder,
isto para usar a bela expressão de Vaclav
Havel, o inspirador das vinte mil palavras que o
soberano invasor da sua Pátria não
só não pôde prender, como não
foi capaz de evitar os efeitos libertadores que tiveram
na queda do regime soviético do leste europeu.
Neste domínio da esperança que habita
a sociedade civil para além de todos os desastres
da ordem política, além de termos o
benefício da intervenção de
líderes excepcionais que obedecem àqueles
valores que Cícero entendia que um Deus legislador
gravou no coração dos homens, e quem
lhes obedece é honrado, e quem os viola é réprobo,
temos aquela outra realidade que são as instituições,
fiéis a uma ideia fundadora, e a um fundador,
que passam de mão em mão o sonho, o
projecto e a decisão, que podem episodicamente
ter de recolher-se às catacumbas para salvaguardar-se
do holocausto programado, mas que não calam
a voz, e regressam ao combate diurno logo que a tenacidade é recompensada
com a abertura de um novo caminho, ainda que estreito.
A Igreja Católica tem vasta experiência
desse projecto atormentado, mas sempre com a defesa
do conceito de que o povo de Deus não
tem fronteiras, e que no povo de Deus não
há estrangeiros.
Trata-se de um conceito que inspira a compreensão
da realidade actual da sociedade civil mundial, que
tende para transnacional e transfronteiriça,
um facto que já inspira a autonomia dos estudos
sobre o chamado terceiro sector ou nonpropit
sector da economia, com o apoio de instituições
como a Calouste Gulbenkian Foundation, a Luso-American
Foundation, a Ilídio Pinho Foundation, a Aga
Khan Foundation, e com relevo para o Center for Civil
Society Studies of Johns Hopkins University nos EUA.
Acontece que o ilustre homenageado de hoje, Sua
Alteza Aga Khan, recebeu a responsabilidade hereditária
de uma liderança espiritual que radica directamente
no Profeta, sendo o Iman of the Shia Ismaili Muslims.
Falaremos adiante desta responsabilidade carismática,
mas antes notaremos que faz parte da sua experiência
histórica e da liderança que lhe pertence,
o saber acumulado sobre as culturas ocidentais e
orientais, sobre as dificuldades dos seus contactos,
sobre os métodos mais apropriados para o seu
encontro pacífico, cooperante, e produtivo
de novas sínteses culturais. Foi essa a grande
lição de Aga Khan III (1877-1957),
cuja liderança no fim do Império britânico
da Índia, e intervenção na Sociedade
das Nações em 1930, assim como as intervenções
reformistas na área dos direitos humanos,
na insistente defesa da educação multicultural,
e da amizade entre os povos, o fizeram inscrever
na teoria de servidores dos interesses comuns da
Humanidade. Não apenas ele próprio
talhou por si um lugar único na história
do moderno Islão, como a instituição
encontrou, no Príncipe a quem Évora
hoje presta homenagem, um líder que assegurou
os valores que dão sentido à sua liderança
espiritual, e fortalecem a linha de serviço à sociedade
civil que se mundializa.
Ainda tive ocasião de apreciar, em cargo
de responsabilidade, a notável acção
que os ismaelitas desenvolvem em Moçambique,
onde pude seguir a viagem que ali fez, oficialmente,
o pai do nosso ilustre homenageado. Este laço
com Portugal fortalece-se com a contribuição
que a comunidade ismaelita dá hoje à sociedade
civil portuguesa, que a acolhe com respeito, confiança
e igualdade, uma sociedade que torna promissor o
programa de cooperação que Sua Alteza
assinou há poucos dias com o governo português,
sem esquecer a devoção que com ele
mantemos solidariamente com Moçambique, o
povo que mais nos lembra nesta oportunidade.
Mas voltemos à liderança espiritual
de Sua Alteza, uma das razões que inspiram
a decisão da Universidade de Évora.
Aqui, nesta Universidade, teve Portugal uma escola
de Direito Natural, inspirada pelo seu professor
Luís de Molina, escola de onde saiu o primeiro
Bispo do Japão, escola que viveu todas as
contradições, angústias, e combates
da época que foi de Vitória, do Doctor
Eximius Suarez, mestre de Coimbra, de Las Casas mergulhado
na tragédia do encontro hispânico com
a América.
Esta parte do património da Universidade,
sedeada numa região onde persiste a marca
da presença islâmica, e também
a recordação dos Reis portugueses que
em seu tempo realmente foram reis das três
religiões, é uma sólida inspiração
para que nos debrucemos com agonia, no sentido mais
profundo da palavra, sobre os dramas de ruptura da
paz que acompanham o facto que já referimos,
e que não tem antecedente na história
da Humanidade: todas as áreas culturais do
mundo falam com voz própria. De facto, o multiculturalismo é uma
realidade de dimensão crescente, e na Europa
nesta data existe definitivamente um Islão
europeu, como acontece em muitas outras áreas
políticas e culturalmente diferenciadas que
o receberam e integraram as suas comunidades, todas
ligadas pela cidadania.
Os livros santos não sacralizam a guerra,
a experiência de séculos demonstra que
não existe nenhum problema que a guerra resolva,
mas não obstante entramos no século
XXI com o regresso à alarmante prática
de incluir valores religiosos no conceito estratégico
de poderes assimétricos que se afirmam como
a longa mão de imperativos divinos.
A subida aos extremos, que era uma discutida prerrogativa
dos Estados, emergiu com a forma de terrorismo global,
que faz do martírio dos inocentes o instrumento
do descrédito e violação da
relação de confiança entre as
sociedades civis e os governos.
Com algumas brutais e seleccionadas intervenções,
esse terrorismo demonstrou a viciosa capacidade de
recrutar desesperados no ambiente, tantas vezes injusto,
discriminador, e sem esperança, de comunidades
imigrantes, instaladas no próprio espaço
ocidental, com isto afectando igualmente a relação
de confiança sem a qual não se desenvolve
o processo integrador.
A consciência da responsabilidade das lideranças
espirituais, agindo na sociedade civil entendida
como antes referimos, inspirou acções
exigentes, em que não podemos deixar de referir,
como inesquecível referência, a intervenção
de João Paulo II. A sua histórica iniciativa
de convocar para a cidade Santa de Assis os responsáveis
de todas as crenças, para em conjunto meditarem
sobre os valores comuns que as inspiram a favor da
paz, tem neste acto a participante presença
do Padre Mateus Zuppi, voz autorizado da Comunidade
de Santo Egidyo, que prestou serviços extraordinários à paz
em Moçambique, esse país tão
presente no amor de portugueses, da Santa Sé,
e de Sua Alteza Aga Khan.
Outras grandes vozes vieram dirigir-se ao mundo
no nosso país, lembrando aqui a intervenção
que, no ambiente de recepção da Universidade
de Lisboa, se ficou a dever ao Dalai-Lama, ele também
em pregação pela paz global, essa paz
que não é apenas ausência de
guerra.
A intervenção de Sua Alteza Aga Khan
tem sido paradigmática na resposta a tão
grave conjuntura. Por um lado, com a impressionante
rede de Fundações, projectos de ajuda
ao desenvolvimento sustentado pela área da
geografia da fome, presença activa nas catástrofes
com que a natureza anda a chamar os poderes políticos à humildade,
orienta-se sem concessões pela defesa da dignidade
humana, igual para todos sem distinção
de etnias, culturas, ou religião, sabendo
que a miséria física e espiritual desenvolve
um caldo de cultura que facilita o recrutamento de
desesperados para a violência sem medida. Por
outro lado, dando consistência à intervenção
de autoridades carismáticas na orientação
da sociedade civil que se mundializa, a defesa dos
valores da paz é uma cruzada em que se empenha
sem concessões. De facto podem repetir-se,
como referindo-se às suas convicções,
as palavras que o seu ilustre antecessor Aga Khan
III, na qualidade de Presidente da Assembleia da
Sociedade das Nações, ali proferiu
no discurso de posse no dia 13 de Setembro de 1937: “The
peaceful removal of all causes of war and the establishment
of the unchallengeable empire of peace throughout
the world”.
A Universidade de Évora, segura
do humanismo que nela tem raízes seculares,
será honrada
pelo facto de uma das escutadas vozes da sociedade
civil mundial, dotada do carisma institucional que
lhe pertence, e da autoridade pessoal que granjeou,
sendo praticante da mesma regra, proclamada na ONU
por Paulo VI, de que o desenvolvimento é o
novo nome da paz, venha confirmar e reforçar
nesta sede que a paz é um valor cimeiro da
sua liderança espiritual, um valor cuja violação,
como proclamou a UNESCO, começa no coração
dos homens. Por estes fundamentos, solicito ao Magnifico
Reitor da Universidade de Évora, que invista
na dignidade de Doutor Honoris Causa Sua Alteza o
Príncipe Aga Khan, um líder da paz.
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