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Adriano Moreira, Presidente do Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior Professor Emérito da Universidade Técnica de Lisboa (Evora, Portugal)

12 February 2006

 

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Fomos atempadamente advertidos de que o bater de asas de uma borboleta no Pacífico poderia originar um tufão no continente americano. Não houve advertência suficiente para antecipar que uma inspiração de modesto e pouco advertido caricaturista, das margens do Atlântico, provocaria uma inaceitável tempestade ao longo do cinturão muçulmano que, de Gibraltar à Indonésia, separa o Norte do Sul do mundo. O tema dos valores ocidentais, e da relevância que entre eles assume a liberdade de expressão, não suscita dúvidas ou cedências, mas também não dispensa o aprofundamento da temática das relações entre áreas culturais diferenciadas, que tanto preocupa a ONU, nem a observância de uma atitude de respeito mútuo assumida. Este é um pressuposto mais sólido e mais exigente do que a tolerância, entre entidades que deixaram de ser apenas fronteiriças para assumirem o desafio da criação de sociedades multiculturais, em busca sinuosa de integração funcional, da pacífica troca de padrões, da criação de um tecido conjuntivo de sociedade civil de confiança. O desatino da violência mobilizada ao longo do cordão muçulmano, e que manifestamente procura também arrastar o islamismo europeu, está certamente em contradição com os valores da paz acolhidos pelos livros santos de todas as religiões, mas não é novidade que os conceitos estratégicos de projectos políticos manipulem a doutrina para emocionar as massas a favor dos seus objectivos de poder. No caso presente, em que o tufão abala alicerces da nossa sociedade afluente, viola a paz interna das nossas sociedades multiculturais, e coloca em suspenso as boas normas das relações internacionais, o esforço para conservar valores inalienáveis é exigível, a pregação do comedimento é urgente, a responsabilização das lideranças espirituais e culturais no sentido de evitar a subida aos extremos não pode ser dispensada. Mas também não é possível ignorar que as defesas ocidentais da sua concepção de vida, da integridade das suas estruturas, da sustentação da sua própria viabilidade, mostram fragilidades que se aprofundam à medida que a pós-industrialização avança, e que as entidades responsáveis pelo plano de batalha em curso tem o ocidente como inimigo, adoptam o terrorismo como método, usam as massas como instrumento, praticam o sacrifício dos inocentes para quebrar a confiança das sociedades civis. Neste plano, dando à questão da segurança e defesa a autonomia que exige, a menos acertada das atitudes está provavelmente no facto de os ocidentais não se assumirem como objecto indiviso desta agressão em progresso, não decidirem que a reinvenção da governança mundial exige uma sua atitude responsável e mobilizadora, que ultrapassem as diferenças internas que parecem menores em face da dimensão da crise, e que reconheçam que não pode ser adiado o diálogo e o entendimento com os poderes estaduais emergentes na moldura do globalismo. Não parece sustentável adiar o reconhecimento de que a China tem uma nova percepção da ordem mundial, e de que a sua responsabilidade na construção de um novo modelo será indispensável; a cultura da Índia, que envolve o seu poder emergente, tem de ser um apoio no sentido de uma nova ordem ultrapassar as capacidades do terrorismo global, e da anarquia induzida; a Rússia, finalmente encaminhada para ser um Estado cooperante, é indispensável participante nessa definição. Parece de primeira evidência que o diálogo das culturas, centrado em valores comuns que incluam o respeito pelas diferenças, e a invulnerabilidade do núcleo central da identidade de cada área, não será estruturante se os poderes políticos em declínio não meditarem sobre a distância que vai das suas capacidades efectivas à sobrevivente imagem das suas hierarquias passadas. Urgindo reconhecer que é necessário ultrapassar o diálogo menor que divide os ocidentais a partir de memórias mal racionalizadas, para dinamizarem com unidade a convergência dos poderes emergentes a favor da paz. Os débeis resultados da cimeira de Setembro de 2005, na ONU, assentaram na conservada visão de um mundo que já não existe, que já não existia na data da organização do Conselho de Segurança, porque alguns dos Estados que receberam o privilégio do veto tinham perdido na guerra as capacidades com que organizaram os impérios. É nas áreas que essas soberanias chamaram – o resto do mundo, que estão os poderes emergentes. A reinvenção da governança mundial exige uma espécie de paz dos bravos.

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